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Histórias de arquivo

Um cálice de cabeça para baixo

Como um pintor futurista desenhou, em 1932, a garrafinha do Campari Soda.

Close da tampinha vermelha do Campari Soda, com o nome gravado em volta, e outras garrafinhas fora de foco atrás.
Foto: Franklin Heijnen, CC BY-SA 2.0

Num bar na Itália, quem pede um Campari Soda recebe uma garrafinha vermelha em forma de cone, de uma dose só. Não tem rótulo de papel. O nome vem em relevo no próprio vidro, que é fosco e tem uma textura parecida com casca de laranja. A garrafa é praticamente a mesma desde 1932, quando foi desenhada por Fortunato Depero, pintor do futurismo italiano.

Uma garrafinha de Campari Soda sobre fundo claro; o nome aparece em relevo no próprio vidro.
O nome no vidro, sem papel colado.Foto: Justinc, CC BY-SA 2.0

A encomenda veio de Davide Campari, filho do fundador da casa. A ideia era vender o aperitivo já pronto: uma dose exata de Bitter Campari com água gaseificada, envasada e lacrada na fábrica, que dispensava o sifão, a garrafa de pressão de onde se tirava a soda. A Campari diz que foi a primeira a vender um aperitivo desse jeito. Depero já fazia os cartazes da marca desde 1926.

Chamar artista não era novidade ali. O primeiro cartaz da Campari é de 1894, e na virada do século passaram pela casa ilustradores como Adolfo Hohenstein, que em 1901 desenhou um garçom servindo o Campari com soda numa mesa de café.

Cartaz de 1901: dois homens de chapéu numa mesa de café, sob as letras Bitter Campari.
Adolfo Hohenstein, Bitter Campari, 1901.Foto: Sailko, CC BY 3.0

O futurista

Depero nasceu em 1892 em Fondo, no Trentino, que na época pertencia à Áustria-Hungria. Em dezembro de 1913 foi a Roma, conheceu Marinetti e o grupo dos futuristas e viu o trabalho de Boccioni na Galleria Sprovieri, onde ele mesmo expôs poucos meses depois.

O futurismo tinha começado em 1909, com um manifesto que Filippo Tommaso Marinetti publicou na primeira página do Le Figaro, em Paris, a favor de uma arte da velocidade e da máquina. Boccioni levou a ideia para a escultura. Em 1913 fez uma garrafa sem contorno, em que os planos de dentro e de fora do objeto se abrem e parecem girar no espaço em volta. Chamou a peça de Desenvolvimento de uma garrafa no espaço, e um bronze dela, fundido em 1950, está hoje no Metropolitan, em Nova York.

Escultura de bronze de Boccioni: uma garrafa aberta em planos sobre uma base, como se girasse no espaço.
Umberto Boccioni, Desenvolvimento de uma garrafa no espaço, 1913.The Metropolitan Museum of Art

Depero entrou oficialmente no movimento em 1915, por intermédio de Giacomo Balla. No mesmo ano os dois assinaram o manifesto Reconstrução futurista do universo, que queria tirar o futurismo do quadro e levá-lo para os objetos do dia a dia. Depois da guerra, em Rovereto, Depero abriu a Casa d'Arte Futurista, onde fazia almofadas, móveis, brinquedos, cartazes e decoração de interiores. As tapeçarias da casa eram mosaicos de pano de lã, costurados pela mulher dele e por costureiras.

Um prédio feito de letras

Em 1927, na exposição de artes decorativas de Monza, Depero construiu o pavilhão do livro das editoras Treves e Bestetti Tumminelli. O prédio inteiro funcionava como anúncio, e as letras gigantes de "il libro" e de "Treves" faziam parte da própria arquitetura. A regra dele era tirar a forma do pavilhão daquilo que estava exposto, e como ali se expunham livros, a construção era feita de tipos. Ele chamou isso de arquitetura tipográfica e, em 1933, projetou para a Campari um quiosque tipográfico.

Entre uma coisa e outra houve Nova York. Em setembro de 1928 Depero foi para lá com a mulher, atrás de trabalho em publicidade. Fez capas e ilustrações para a Vogue, a Vanity Fair, a New Yorker e a revista da loja Macy's, e decorou dois restaurantes. A filial que abriu na cidade não vingou, a crise de 1929 piorou as coisas, e em outubro de 1930 ele estava de volta à Itália.

A arte do futuro

Em 1931 a Campari publicou o Numero unico futurista Campari, um volume com desenhos de Depero e poemas publicitários. Nele saiu também um manifesto de Depero sobre o futurismo e a arte publicitária, com uma frase que no original vem toda em minúsculas:

A arte do futuro vai ser poderosamente publicitária.Fortunato Depero, 1931

A garrafa

Os esboços da garrafa que a revista Domus publicou têm datas de 1927 e de 1928. A forma que ficou é um tronco de cone, a parte de cima de um cálice virada para baixo. O vidro saiu da vidraria Angelo Bordoni e Figlio, e Davide Campari montou com um químico o processo e as máquinas para encher aquele frasco na fábrica. Para a Domus, Depero entrou mais com a ideia do que com a técnica.

O nome não foi impresso nem colado. Está em relevo no vidro fosco, e as informações técnicas iam na tampinha. A superfície lembra a casca de uma laranja, o que dá pegada à mão e imita as gotas de uma garrafa que acabou de sair do gelo.

Uma fileira de garrafinhas vermelhas de Campari Soda numa prateleira de madeira, com o vidro texturizado brilhando.
A textura do vidro.Foto: Graeme Maclean, CC BY 2.0

Julho de 1932

O lançamento foi em 1932. Em julho, a Campari publicou anúncios de página inteira no La Domenica del Corriere, o suplemento semanal ilustrado do Corriere della Sera, os primeiros da marca com fotografia e fotomontagem. Vendiam a ideia de levar o aperitivo pronto para casa e para a viagem. Pouco depois, máquinas de moeda em lugares públicos já entregavam a garrafinha gelada.

A Galleria Campari, o museu da empresa, fala em cerca de 5 milhões de garrafinhas vendidas na estreia. Quando a produção voltou, depois da guerra, foram 11 milhões, e quase o triplo dois anos mais tarde.

No balcão

Em 1957 Depero fez um acordo com a cidade de Rovereto para um museu com o nome dele, a Casa d'Arte Futurista Depero, que abriu em 1959. Ele morreu no ano seguinte. Os cartazes que fez para a Campari estão hoje em acervos como o da Galleria Campari, e a garrafinha continua no balcão quase igual à que saiu da fábrica em 1932, com o nome no vidro e nenhum papel colado.

Texto de Martha Misorelli

Fontes: Galleria Campari, Domus, Treccani, Fundación Juan March e The Metropolitan Museum of Art.

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