Um cálice de cabeça para baixo
Como um pintor futurista desenhou, em 1932, a garrafinha do Campari Soda.
Num bar na Itália, quem pede um Campari Soda recebe uma garrafinha vermelha em forma de cone, de uma dose só. Não tem rótulo de papel. O nome vem em relevo no próprio vidro, que é fosco e tem uma textura parecida com casca de laranja. A garrafa é praticamente a mesma desde 1932, quando foi desenhada por Fortunato Depero, pintor do futurismo italiano.
A encomenda veio de Davide Campari, filho do fundador da casa. A ideia era vender o aperitivo já pronto: uma dose exata de Bitter Campari com água gaseificada, envasada e lacrada na fábrica, que dispensava o sifão, a garrafa de pressão de onde se tirava a soda. A Campari diz que foi a primeira a vender um aperitivo desse jeito. Depero já fazia os cartazes da marca desde 1926.
Chamar artista não era novidade ali. O primeiro cartaz da Campari é de 1894, e na virada do século passaram pela casa ilustradores como Adolfo Hohenstein, que em 1901 desenhou um garçom servindo o Campari com soda numa mesa de café.
O futurista
Depero nasceu em 1892 em Fondo, no Trentino, que na época pertencia à Áustria-Hungria. Em dezembro de 1913 foi a Roma, conheceu Marinetti e o grupo dos futuristas e viu o trabalho de Boccioni na Galleria Sprovieri, onde ele mesmo expôs poucos meses depois.
O futurismo tinha começado em 1909, com um manifesto que Filippo Tommaso Marinetti publicou na primeira página do Le Figaro, em Paris, a favor de uma arte da velocidade e da máquina. Boccioni levou a ideia para a escultura. Em 1913 fez uma garrafa sem contorno, em que os planos de dentro e de fora do objeto se abrem e parecem girar no espaço em volta. Chamou a peça de Desenvolvimento de uma garrafa no espaço, e um bronze dela, fundido em 1950, está hoje no Metropolitan, em Nova York.
Depero entrou oficialmente no movimento em 1915, por intermédio de Giacomo Balla. No mesmo ano os dois assinaram o manifesto Reconstrução futurista do universo, que queria tirar o futurismo do quadro e levá-lo para os objetos do dia a dia. Depois da guerra, em Rovereto, Depero abriu a Casa d'Arte Futurista, onde fazia almofadas, móveis, brinquedos, cartazes e decoração de interiores. As tapeçarias da casa eram mosaicos de pano de lã, costurados pela mulher dele e por costureiras.
Um prédio feito de letras
Em 1927, na exposição de artes decorativas de Monza, Depero construiu o pavilhão do livro das editoras Treves e Bestetti Tumminelli. O prédio inteiro funcionava como anúncio, e as letras gigantes de "il libro" e de "Treves" faziam parte da própria arquitetura. A regra dele era tirar a forma do pavilhão daquilo que estava exposto, e como ali se expunham livros, a construção era feita de tipos. Ele chamou isso de arquitetura tipográfica e, em 1933, projetou para a Campari um quiosque tipográfico.
Entre uma coisa e outra houve Nova York. Em setembro de 1928 Depero foi para lá com a mulher, atrás de trabalho em publicidade. Fez capas e ilustrações para a Vogue, a Vanity Fair, a New Yorker e a revista da loja Macy's, e decorou dois restaurantes. A filial que abriu na cidade não vingou, a crise de 1929 piorou as coisas, e em outubro de 1930 ele estava de volta à Itália.
A arte do futuro
Em 1931 a Campari publicou o Numero unico futurista Campari, um volume com desenhos de Depero e poemas publicitários. Nele saiu também um manifesto de Depero sobre o futurismo e a arte publicitária, com uma frase que no original vem toda em minúsculas:
A arte do futuro vai ser poderosamente publicitária.Fortunato Depero, 1931
A garrafa
Os esboços da garrafa que a revista Domus publicou têm datas de 1927 e de 1928. A forma que ficou é um tronco de cone, a parte de cima de um cálice virada para baixo. O vidro saiu da vidraria Angelo Bordoni e Figlio, e Davide Campari montou com um químico o processo e as máquinas para encher aquele frasco na fábrica. Para a Domus, Depero entrou mais com a ideia do que com a técnica.
O nome não foi impresso nem colado. Está em relevo no vidro fosco, e as informações técnicas iam na tampinha. A superfície lembra a casca de uma laranja, o que dá pegada à mão e imita as gotas de uma garrafa que acabou de sair do gelo.
Julho de 1932
O lançamento foi em 1932. Em julho, a Campari publicou anúncios de página inteira no La Domenica del Corriere, o suplemento semanal ilustrado do Corriere della Sera, os primeiros da marca com fotografia e fotomontagem. Vendiam a ideia de levar o aperitivo pronto para casa e para a viagem. Pouco depois, máquinas de moeda em lugares públicos já entregavam a garrafinha gelada.
A Galleria Campari, o museu da empresa, fala em cerca de 5 milhões de garrafinhas vendidas na estreia. Quando a produção voltou, depois da guerra, foram 11 milhões, e quase o triplo dois anos mais tarde.
No balcão
Em 1957 Depero fez um acordo com a cidade de Rovereto para um museu com o nome dele, a Casa d'Arte Futurista Depero, que abriu em 1959. Ele morreu no ano seguinte. Os cartazes que fez para a Campari estão hoje em acervos como o da Galleria Campari, e a garrafinha continua no balcão quase igual à que saiu da fábrica em 1932, com o nome no vidro e nenhum papel colado.
Texto de Martha Misorelli
Fontes: Galleria Campari, Domus, Treccani, Fundación Juan March e The Metropolitan Museum of Art.

