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Ensaio

Uma semana em Seasalter

Fiz de tudo na cozinha de um pub de Kent que tirava o próprio sal do mar.

Fileira de cabanas de praia coloridas no fim de uma marisma, sob um céu de nuvens.

Durante um tempo, sempre que ia viajar, eu pesquisava algum restaurante interessante na região e mandava um e-mail perguntando se podia ficar uma semana com eles, cozinhando. Costumam aceitar: eles sempre precisam de uma mão, e a troca é sempre legal.

Alguns anos atrás fiquei um tempo na costa do Reino Unido, e o e-mail foi para o pessoal do Sportsman, em Kent. É um gastropub, como os ingleses chamam o pub onde se come a sério, com uma estrela Michelin, e é absolutamente despretensioso. Fica fora do mainstream, mas é muito, muito sólido.

Ele fica em Seasalter, na costa norte de Kent, e para chegar lá você passa por um camping de trailers e por uma fileira de cabanas de praia. O pub é uma casa branca e castigada pelo tempo, encostada no dique, com o mar de um lado e do outro a marisma, aquele campo de capim que a água salgada alaga. Dentro tem piso de tábua e mesa de madeira, e as cadeiras não combinam.

Quem toca a casa é Stephen Harris, que cresceu ali do lado, em Whitstable. Antes de cozinhar ele teve banda punk, deu aula de história e vendeu plano de previdência. Aprendeu comendo nos restaurantes dos chefs que admirava e repetindo os pratos em casa, com os livros deles do lado, e só foi trabalhar numa cozinha depois dos trinta.

Veleiros guardados em terra diante de uma fileira de cabanas de madeira, sob um céu azul.

A banda ensaiava num salão de vila ali perto, e nessa época ele já tinha passado pelo pub. Uns vinte anos depois voltou por acaso e resolveu ficar com o lugar. Levou quase um ano para fechar o contrato, com vinte mil libras emprestadas de um irmão que tinha gravadora. Pelo que ele conta, era um muquifo: carpete grudento, cozinha cheia de fritadeira e micro-ondas e um bife de quase um quilo, de graça para quem comesse inteiro. Ele, o irmão Phil e uns amigos arrancaram tudo por conta própria, como faziam na banda, e em coisa de uma semana o pub já estava com a cara que manteve depois.

O próprio Stephen dizia que o lugar era encardido e caindo aos pedaços, para ninguém poder reclamar, e a casa nunca fez anúncio. Mesmo assim veio a estrela, e depois dois anos seguidos em primeiro lugar no prêmio nacional dos restaurantes britânicos.

A equipe estava junta havia anos. Dan Flavell, o chef de cozinha, trabalhava com ele quase desde o começo.

Foi nessa cozinha que passei a semana, fazendo de tudo. Quando você vai dar uma força num restaurante desses, a ideia normalmente é te deixarem testar e aprender o máximo que der.

O sólido que eu dizia vem de poucos ingredientes, preparados de forma simples. Clássicos bem feitos e a dose certa de autoral. Dá para ver no cardápio de uma sexta daquela semana, impresso numa folha branca comum, com a foto do pub em cima.

O cardápio do Sportsman, uma folha branca amassada com a foto do pub em cima, segura pela mão.

São nove linhas, e a primeira é uma palavra só: ostras. Mais abaixo tem turbot com porcini e sela de cordeiro assada, e a descrição acaba aí. O autoral aparece em poucos lugares: o sal de Seasalter na manteiga que vem com o pão, o linguado grelhado em manteiga de alga, um sanduíche de sorvete de morango quase no fim.

Uma ostra fechada na palma da mão, sobre uma bacia com outras ostras.
Antes de abrir.

Whitstable cria ostra desde os romanos, e foi numa companhia de ostras de lá que Stephen aprendeu a trabalhar com peixe.

Na tábua, aquela palavra virava um trio, sobre conchinhas de berbigão: uma ostra ao natural e, ao lado dela, outras com mais trabalho, como a pochê, com pepino em conserva e ovas pretas por cima.

Várias tábuas de ostras servidas sobre conchinhas de berbigão, com colheres.

Logo abaixo vem pão, manteiga batida na casa e sal de Seasalter. Uns anos depois de abrir, Stephen passou uma semana doente, longe da cozinha, e foi mexer na história do lugar com um amigo arqueólogo. Descobriu que mil anos atrás Seasalter pertencia à cozinha do arcebispo. O nome quer dizer mais ou menos casa do sal do mar: na Idade Média aquela costa fazia sal, e teve época em que pagavam a renda à catedral em sal.

Quando estive lá, a cozinha tirava do mar, a uns 200 metros, grande parte do sal que usava. Filtrava a água e fervia até sobrar o sal, que ia, entre outras coisas, naquela manteiga, batida com o creme de um único rebanho de vacas Jersey. O soro que sobrava dela entrava no pão.

Para quem perguntava o porquê disso tudo, Stephen tinha resposta pronta: um cozinheiro de um lugar chamado Seasalter que não faz o próprio sal está dormindo no ponto. Que o sal fosse melhor ou diferente ele nunca disse: sal é sal. Mas uns 80, 90 por cento do que entrava na cozinha vinha dos arredores, e ele achava que era isso que dava direção a ela.

O linguado do meio da folha já estava no cardápio havia anos. As algas da manteiga dele vinham dali da frente, como o sal, e essa ideia Stephen trouxe de uma viagem ao Japão: voltou achando que Kent devia ter alga boa. Quem usava alga naquela época comprava a importada, e ninguém olhava para a da própria praia. Na manteiga iam alface-do-mar e outra alga verde da região, secas e reduzidas a pó.

O sanduíche de sorvete de morango é a penúltima linha.

Um sanduíche de sorvete de morango sobre uma tabuinha, na mão; atrás, fora de foco, mais tábuas e pratos empilhados.

A praia de cascalho fica a alguns metros da porta. Quem for almoçar lá pode voltar a pé até Whitstable pela beira do mar, o que depois daquela manteiga toda não é má ideia.

Praia de cascalho no fim da tarde, com barcos guardados em primeiro plano e cabanas ao longe.

Texto de Diogo Seadon

Fotos de Diogo Seadon.

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